O
primeiro ginecologista que descobriu a importância do treinamento
muscular para suas pacientes foi Dr. Arnold Kegel, em 1952, que ao tratar
a incontinência urinária por tensão nas mulheres,
verificou que muitas de suas pacientes anorgásmicas passaram
a apresentar orgasmos e aquelas que possuíam orgasmos, melhoraram
a qualidade do mesmo.
Nos
últimos anos inúmero pesquisador tem estudado essa região
do organismo, tão importante para a qualidade de vida. Estes
estudos ampliaram a visão anátomo funcional do assoalho
pélvico, principalmente em relação ao tratamento
da incontinência urinária de esforço genuína,
de maneira a que o tratamento seja eficaz e com baixa morbilidade.
A
cirurgia para incontinência urinária tem um sucesso razoável
que varia de 60 a 80% em cinco anos, mas com algumas seqüelas que,
na maioria dos estudos não são destacadas. Por exemplo,
a cirurgia pode causar disfunções miccionais, desde o
fluxo diminuído até a retenção permanente,
além de, em aproximadamente 10 a 20% dos casos, se instalar a
instabilidade do detrusor no pós operatório.
Para
entender melhor as últimas considerações gostaria
de falar sobre o funcionamento da bexiga:
Em
condições normais, a bexiga é enchida lentamente,
sendo capaz de armazenar urina por várias horas sem nenhum desconforto.
Após
atingir determinado volume, a bexiga envia ao cérebro a sensação
de plenitude vesical e, no momento oportuno e de maneira voluntária,
inicia-se a micção. A incontinência urinária
ocorre quando a bexiga não consegue armazenar a urina ou é
incapaz de se esvaziar completamente.
A
bexiga não consegue armazenar por dois motivos:
1) Hiperatividade da musculatura: contração do detrusor
independente da vontade da pessoa.
2) Uretra hipermóvel ou lesada: quando ocorre um aumento da pressão
abdominal, por exemplo, quando a paciente tosse, essa pressão
extra é também transmitida à bexiga. Em condições
normais, a uretra é capaz de suportar qualquer aumento da pressão
abdominal porque a porção da uretra localizada dentro
do abdômen recebe a mesma pressão, neutralizando, assim,
o resultado do esforço. Por outro lado, quando há um relaxamento
do assoalho pélvico a bexiga e a uretra sofrem um processo de
herniação, de maneira que, durante o esforço, a
uretra se move para uma posição extra abdominal na qual
deixa de receber o aumento da pressão abdominal. Na ausência
desse aumento compensatório da pressão abdominal, a pressão
vesical supera a uretral, ocorrendo, assim, a perda urinária.
3)
Em termos fisiátricos e fisioterapêuticos, devemos ter
uma visão não só do assoalho pélvico, mas
de todo o corpo. O conjunto dos músculos e ligamentos da parte
dorsal da bacia e dos membros inferiores sustenta de modo estático,
a bacia em equilíbrio (formando uma “barra horizontal”).
A cintura pélvica sustenta toda a parte superior do corpo.
A posição equilibrada da bacia faz com que o conjunto
dos órgãos pélvicos não exerça grande
pressão sobre o assoalho pélvico.
Se, por exemplo, o tônus da parede abdominal diminuir muito, terá
uma maior pressão sobre o assoalho pélvico. Neste caso,
esta pressão exercida anteriormente sobre o púbis e o
assoalho pélvico pode levar ao relaxamento desses músculos
e descida genital (prolapso). Desta forma, anomalias e vícios
de postura podem causar ou piorar o prolapso genital (queda) com conseqüente
desequilíbrio da cintura pélvica e relaxamento da musculatura
do assoalho pélvico. O equilíbrio da bacia é conseguido
em grande parte pela musculatura abdominal de tônus adequado,
cuja inserção se localiza na própria bacia, que,
por sua vez, é fixada à coluna por ligamentos.
As
articulações sacro ilíacas conectam o fêmur
ao sacro, sendo seguras por fortes ligamentos para que seja capaz de
sustentar todo o peso da parte superior do corpo.
O
sacro é sustentado por ligamentos bem desenvolvidos e fortes
(ligamentos sacrociáticos e interósseos) que suportam
o peso do tronco sobre o mesmo, transmitindo-o ao fêmur.
Abordamos
a “anatomia desta região do corpo, porque o relaxamento
e “afrouxamento” destes ligamentos podem estar relacionados
com diversas situações clínicas como gravidez e
constipação fecal. Vícios de posição
parecem estar relacionados à piora do prolapso genital (queda)
e consequentemente, da incontinência urinária, apesar de
não haver estudos experimentais e/ou clínicos que comprovem
cientificamente esta relação.
Em
relação à incontinência urinária,
estudos recentes demonstraram que pacientes com incontinência
urinária de esforço apresentam alterações
eletromiográficas e de latência com diminuição
na condução nervosa do ramo perineal do nervo pudendo,
que enerva a musculatura estriada peri-uretral (Smooks ET al.). Investigações
neurofisiológicas como a de Gelpin e AL (1989) mostraram alterações
histológicas sutis, mas significativas na musculatura estriada
peri-uretrais em mulheres incontinentes. Outro estudo de Smuth ET AL
demonstrou uma denervação parcial do assoalho pélvico
com subsequente regeneração como um processo que ocorre
normalmente em mulheres com o aumento da idade e da paridade. Estudando
mulheres com incontinência urinária e mulher continente
concluiu ainda que as primeiras apresentassem uma denervação
bem mais significativa que o grupo-controle. Estes estudos sugerem um
fator neurogênico na fisiopatologia da incontinência urinária.
Ao mesmo tempo, trabalhos realizados através de dissecção
de cadáveres e ressonância magnética demonstraram
vários defeitos no assoalho pélvico de pacientes incontinentes
e portadoras de relaxamento do assoalho pélvico. Além
de demonstrarem a importância da musculatura estriada peri-uretral
no mecanismo de continência, mudando um pouco a idéia de
que o mecanismo da incontinência urinária de esforço
se baseia em um fenômeno passivo de transmissão de pressão
e, ao mesmo tempo, reforçando a importância do assoalho
pélvico na continência urinária. Até agora
já podemos concluir que mulheres portadoras de incontinência
urinária de esforço genuína quase invariavelmente
apresentam denervação parcial com subsequente regeneração
inadequada, tanto da musculatura estriada peri-uretral quanto dos músculos
do assoalho pélvico. O resultado deste processo seria uma ausência
de suporte muscular adequado do esfíncter uretral (musculatura
estriada peri-uretral) com diminuição de fechamento uretral
necessária para a manutenção da continência
urinária.
A
reeducação do assoalho pélvico tem sido cada vez
mais estudada, pois há evidências de que se exercitarmos
especificamente este grupo muscular conseguirá um aumento no
tônus, regeneração das fibras musculares denervadas
e correção dos defeitos musculares.
Objetivos e mecanismo de ação da reeducação
do assoalho pélvico.
Mecanismo
de ação:
Através da fisioterapia do assoalho pélvico e músculos
acessórios visamos a um aumento do tônus e força
muscular nos grupos musculares trabalhados. Isto pode ser conseguido
através de:
1 – promoção de um reflexo de contração
do assoalho pélvico coincidente da pressão abdominal,
reflexo este que produz elevação do colo vesical impedindo
a perda urinária em situações de esforço.
2 – consciência dos músculos do assoalho pélvico
através da contração voluntária que deve
ser exercitada de maneira rotineira pela paciente para que se mantenha
o benefício da fisioterapia.
3 – há evidências de que a “musculação”
do assoalho pélvico promove, em longo prazo, regeneração
nervosa com aumento da massa muscular e aumento da sensibilidade nervosa.
Indicações:
- profilaxia do prolapso genital e insuficiência urinária
de esforço: seleção de pacientes de alto risco.
- tratamento ou melhora da insuficiência urinária em pacientes
selecionadas. A maioria dos estudos tem demonstrado que o mais importante
é a disponibilidade e a motivação da paciente a
se submeter ao tratamento. O sucesso da fisioterapia em termos de cura
é maior nos casos leves e gera em torno de 40% a 90%.
- remover incapacidades, corrigir vícios de postura que podem
piorar o quadro clínico, melhora do funcionamento muscular com
melhora na qualidade de vida da paciente de uma forma geral.
- melhora na função sexual: estudos recentes na área
de sexologia têm demonstrado importância do músculo
pubococcígeo nas pacientes anorgásmicas. Além disso,
o controle consciente da contração do assoalho pélvico
parece ser importante fator no desempenho sexual feminino.
- tratamento da constipação intestinal e da incontinência
fecal. Há evidências que estes casos podem ser melhorados
com o tratamento fisioterápico, já que o tratamento cirúrgico
para a incontinência fecal tem índices de sucessos pobres.
Modalidades
de tratamento
Existem várias formas de se exercitar o assoalho pélvico.
A indicação de cada tipo de tratamento dependerá
da disponibilidade da paciente e da equipe e, em alguns casos, da avaliação
clínica inicial. As pacientes mais jovens, sem cirurgia sobre
o colo vesical, com duração dos sintomas de menos de quatro
anos, não obesas e com boa pressão uretral são
aquelas com o maior sucesso no tratamento em curto prazo (3-6 meses).
Cinesioterapia
A cinesioterapia consiste em exercícios que visam primariamente
à contração igualitária e sinérgica
dos grupos musculares do assoalho pélvico e os acessórios
(glúteos, abdominais, adutores e abdutores).
Técnica
de Kegel
Estes
exercícios fortalecem a musculatura vaginal e permitem que a
mulher sinta mais prazer durante a penetração. O homem
tem um benefício indireto, porque a parceira aprende a massagear
o pênis com a vagina, por meio de contrações.
1
– Contração vaginal: sentada numa cadeira, contraia
os músculos da vagina como se apertasse algo dentro dela. Conte
até três e relaxe. Repita dez vezes, Em seguida, contraia
e relaxe a musculatura rapidamente, como se imitasse o ritmo de uma
respiração ofegante. Conte até dez. Total: 20 repetições.
2
– Contração de glúteo: De pé, contraia
o bumbum. Tente unir as nádegas o máximo que puder. Conte
até três e relaxe. Faça dez vezes. Em seguida, contraia
e solte o bumbum mais rapidamente, imaginando que acompanha uma respiração
ofegante. Conte dez vezes. Total: 20 repetições.
3
– Bambolê: Com as pernas semi-flexionadas, faça movimentos
circulares, como se usasse um bambolê. São quatro tempos:
- a pélvis vai para cima e para frente;
- o quadril vai para a esquerda;
- o bumbum é empinado para trás;
- o quadril vai para a direita.
Total:
10 repetições.
4
– Contração anal: Deitada, flexione as pernas e
eleve o quadril. Fique apoiada apenas sobre os ombros e os pés.
Contraia o bumbum, conte até três e solte. Faça
dez vezes. Relaxe o corpo. Volte à posição inicial
e contraia o ânus em três tempos: de leve, mais forte e
com toda a intensidade. Faça dez vezes e relaxe. Retome o exercício,
só que dessa vez contraia também a vagina, como se quisesse
sugar alguma coisa com ela. Faça dez vezes. Total: 30 repetições.
5
– Sucção vaginal: Recostada na cama, insira um dos
dedos na vagina e aperte-o o máximo que puder. Caso não
consiga apertar um dedo, tente com dois. Faça dez vezes. Depois,
tente sugar o dedo com a vagina. Ajude com a respiração:
inspire e prenda o ar. Conte até três. Faça dez
vezes. Total: 20 repetições.
A
prática do pompoarismo
Há
mais de 1500 anos, as mulheres tailandesas desenvolveram uma técnica
chamada pompoarismo, cujo objetivo era enrigescer as fibras do músculo
pubococcígeo. A técnica ganhou fama com o filme “O
Império dos Sentidos”, com a cena em que uma mulher segurava
um ovo com a vagina e depois o expelia.
Essa
técnica consiste em uma série de exercícios que
trabalham os três anéis musculares da vagina: o anel da
entrada, o anel do meio e o anel próximo ao colo do útero.
A seqüência destes exercícios não é
cansativa, pelo contrário, são até agradáveis,
de tal forma que muitas mulheres, com a simples execução
dos movimentos, têm alcançado sensações muito
prazerosas, semelhantes ao orgasmo.
A
ginástica sexual do pompoarismo, além de fortalecer a
musculatura da vagina e os músculos da região genital
(área pélvica) traz também outros benefícios.
Estes são: previnem as “quedas”, garantem orgasmos
mais intensos, conferem maior mobilidade aos quadris e às áreas
pélvicas, melhorando a performance da mulher na cama e intensificando
suas sensações no orgasmo, confere à mulher mais
confiança em si, aumentando sua sensação de feminilidade.
Dra. Maria Tereza Ribeiro Lopes e Navarro
Ginecologista e Sexóloga